O Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento de Santa Catarina, por meio desta Nota Técnica, vem expressar a preocupação do Grupo de Trabalho (GT) de Patrimônio diante da demolição ocorrida em Florianópolis, em janeiro de 2026, do painel do artista Hiedy de Assis Corrêa, conhecido como Hassis. O painel demolido havia sido criado em 1972 e foi mantido por quase cinquenta e cinco anos no muro da antiga Clínica de Olhos São Sebastião, na Rua Armínio Tavares.

Hassis foi um dos principais artistas visuais de Santa Catarina, com produção artística marcada pela presença da cidade como tema e pela articulação entre arte e espaço público. Como pintor e muralista, desenvolveu obras que dialogavam diretamente com a arquitetura, transformando superfícies construídas em suportes de expressão cultural e de memória coletiva. Seus painéis são elementos artísticos que qualificam a arquitetura, ampliando seu significado simbólico e reforçando sua inserção no imaginário urbano. A demolição da edificação e, consequentemente, do painel, ocorrida no último mês de janeiro, evidencia a forma como intervenções imobiliárias vêm tratando a arte integrada às construções, frequentemente sem incorporar sua dimensão cultural ao processo de decisão.

Em Florianópolis, os impactos das crises contemporâneas, sejam elas ambientais, econômicas ou sociais, ocorrem simultaneamente a dinâmicas intensas de especulação imobiliária, adensamento seletivo e verticalização acelerada. Nesse contexto, é importante reconhecer a arte integrada como bem cultural incorporado à arquitetura, cuja presença demanda análise específica nos processos de intervenção, substituição ou demolição da edificação. Obras como o mural demolido de Hassis dialogam com a edificação e também contribuem para a construção de sentido coletivo e de continuidade cultural da cidade.

Antes mesmo de se considerar a remoção ou extração, a presença de uma obra de arte integrada pode e deve ser incorporada no projeto de arquitetura. Reformas, ampliações e mudanças de uso podem partir da arte existente como elemento estruturador da proposta arquitetônica, orientando soluções espaciais e construtivas.

Quando a demolição se mostra inevitável, a preservação não precisa restringir-se à documentação por meio de fotografias e registros gráficos. A conservação contemporânea dispõe de procedimentos técnicos que permitem a extração física controlada e a reinstalação de murais integrados a estruturas destinadas à substituição. Técnicas de estabilização associadas a métodos de corte estrutural de baixa vibração possibilitam a remoção segura do suporte em alvenaria cerâmica ou concreto. Após a separação controlada, o mural pode ser reforçado com materiais compatíveis e reinstalado sobre subestruturas independentes com fixações reversíveis e afastamento técnico adequado para ventilação e controle de umidade. A adoção dessas soluções implica planejamento antecipado, avaliação especializada e a previsão de recursos compatíveis com a complexidade do procedimento. Trata-se de intervenções que demandam investimento técnico específico, mas que devem ser consideradas como parte das responsabilidades inerentes à transformação de áreas que possuem bens de valor cultural.

O IAB-SC entende que transformação urbana e responsabilidade cultural não são dimensões opostas. O desenvolvimento da cidade pode incorporar suas camadas históricas e artísticas como parte do próprio projeto de futuro. Para isso, é importante que obras integradas à arquitetura sejam reconhecidas como componentes relevantes do patrimônio cultural, demandando análise técnica criteriosa antes de qualquer decisão definitiva. A atuação de instâncias como a Comissão Municipal de Arte Pública (COMPAP) demonstra que Florianópolis dispõe de mecanismos capazes de qualificar o debate sobre arte integrada e espaço urbano. É essencial que esses mecanismos sejam novamente integrados às decisões que envolvam intervenções em edificações com obras incorporadas.

O Instituto, por meio do GT de Patrimônio, conta com profissionais qualificados na área de conservação e restauro e manifesta sua discordância quanto à condução do processo que resultou na perda da obra e consequente perda para a cidade de Florianópolis. Frente ao exposto, reiterando a necessidade de que intervenções em áreas consolidadas considerem, de forma criteriosa, a presença de obras artísticas integradas às edificações, o IAB-SC coloca-se à disposição para contribuir com o debate público e com a adoção de medidas que fortaleçam a preservação da arte integrada à arquitetura em Santa Catarina.

 

João Serraglio

Presidente do IAB-SC

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